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terça-feira, 1 de março de 2016

ESCONDE -ESCONDE


 Conta a lenda que, uma vez, sentimentos, qualidades e defeitos se reuniram pra brincar. Depois que o Aborrecimento reclamou muito, a Loucura propôs: Vamos brincar de esconde-esconde? 
A Intriga ficou intrigada e a Curiosidade não se conteve: Como é isso? 
A Loucura explicou: É um jogo. Um fecha os olhos e conta até dez enquanto os outros se escondem e, quando termina, quem está contando tem que achar todo mundo e o primeiro encontrado ocupa o lugar de quem procura pra continuar o jogo. 
O Entusiasmo dançou seguido pela Euforia. 
A Alegria deu tantos saltos que convenceu a Dúvida e, até mesmo, a Apatia, que nunca se interessava por nada, quis brincar. 
Mas nem todos quiseram participar: a Verdade preferiu não se esconder, pensando que, no final, todos a encontrariam. 
A Soberba disse que era um jogo tonto e a Covardia preferiu não se arriscar. 
A Loucura começou: um, dois, três… 
A primeira a se esconder foi a Pressa, que como sempre caiu atrás da primeira pedra do caminho. 
A Fé subiu ao céu e a Inveja se escondeu atrás da Sombra do Triunfo, que com seu próprio esforço conseguiu subir na copa da árvore mais alta. 
A Generosidade quase não conseguiu se esconder, pois cada local que encontrava parecia maravilhoso para um amigo: um lago cristalino, ideal para a Beleza. 
A copa de uma árvore, perfeito para a Timidez. O voo de uma borboleta, melhor para a Volúpia. A rajada de vento, magnífico para a Liberdade. Assim acabou se escondendo em um raio de sol. O Egoísmo, ao contrário, encontrou um local bom desde o início. Ventilado, cômodo, mas apenas pra ele. 
A Mentira se escondeu no fundo do oceano. Mentira, na verdade, se escondeu atrás do arco-íris.
 A Paixão e o Desejo, no centro de um vulcão. Não lembro onde o Esquecimento se escondeu, mas isso não é importante. Quando a Loucura estava lá pelo número dez, o Amor ainda não havia encontrado um lugar, pois estavam todos ocupados, até que viu uma rosa e, carinhosamente, decidiu se esconder entre as flores. A Loucura terminou de contar e começou a procurar os colegas. 
A primeira a aparecer foi a Pressa, apenas a três passos de uma pedra. Depois, escutou-se a Fé discutindo com Deus, no céu. 
Sentiu a Paixão e o Desejo vibrarem. Em um descuido, encontrou a Inveja e, claro, deduziu onde estava o Triunfo. 
Não precisou procurar o Egoísmo. Ele sozinho saiu disparado de seu esconderijo, um ninho de vespas. De tanto caminhar, sentiu sede e, ao aproximar-se de um lago, descobriu a Beleza. 
A Dúvida foi fácil, estava sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado se esconder. Assim a Loucura encontrou um a um: o Talento entre erva-fresca, a Angústia em uma cova escura, a Mentira atrás do arco-íris (mentira, estava no fundo do oceano) e até o Esquecimento, que esqueceu que estava brincando. 
Só o Amor não aparecia. A Loucura procurou atrás das árvores, em baixo das rochas e em cima das montanhas. Quando estava pra desistir, viu um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando escutou um grito de dor. Os espinhos feriram os olhos do Amor. A Loucura não sabia o que fazer pra se desculpar. Chorou, rezou, implorou, pediu e prometeu ser seu guia. Desde então, desde que pela primeira vez se brincou de esconde-esconde na Terra, o Amor é cego e a Loucura o acompanha.
(DESCONHEÇO O AUTOR)

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